- Deolino P. Baldissera, sds
Já, há muitos anos, ouço pessoas em suas histórias sofridas, carregando às vezes, sofrimentos por longos anos. Sofrem sozinhas até que aguentam! Em geral chega um momento que isso sufoca demais e a pessoa se torna inimiga de si mesma porque não busca ajuda ou porque se sente culpada ou não valorizada o suficiente e assim se estabelece dentro dela uma tristeza que a abate no seu ânimo.
Tem casos em que a pessoa foi vítima de uma situação e mesmo assim se sente culpada por não ter feito nada na ocasião, mesmo que suas condições psicológicas não dispusessem de recursos de análise suficientemente amadurecidas para lidar de outra maneira com o fato. Preferiu suportar sozinha a compartilhar sua dor com alguém. Enquanto teve força e energia foi levando do jeito que pode, mas chega uma hora que o peso fica pesado demais! Aí se deprime, muito frequentemente se vitimiza também, que é uma forma sutil de pedir socorro, mas que provoca o efeito contrário. As feridas que ficam, em geral, tem a ver com experiências de não se sentir amada quando precisava, de não se sentir valorizada pelo que fez, por ter sido maltrata ou desprezada a seus olhos sem merecer, ter sido abusada etc. Quando isso acontece o coração fica ferido, magoado, a autoestima fica espezinhada e seu gosto pela vida fica meio comprometido. Aí surge a dificuldade de aceitar-se como é, com mais sensibilidade diante dos outros esperando compreensão e valorização e quando não encontra isso explicitamente, pensa não ser merecedora e se encolhe em seu ninho de dor e o lamento é seu pedido indireto de ajuda.
Sei, de ouvir, quanto isso faz a pessoa sofrer emocionalmente e o quanto descarrega em doenças psicossomáticas. A doença psicossomática é aquela que antes de ser física foi emocional. Como forma de defesa o próprio psíquico descarrega sobre o corpo o mal que o afeta. Aí se procura o médico, este dá uma medicação, alivia os sintomas, mas o mal de fundo permanece. Cura uma doença, aparece outra como substituta. Enquanto não se tratar a origem do problema dificilmente se livra do mal.
Muitas vezes, as pessoas carregam seus males porque não encontram alguém que as ouça sem julgamento, sem preconceito. É frequente não confiar em alguém porque não confia também em si própria. Tem um autoconceito muito pobre de si, alimenta ideia de ser perfeito e não admite que é limitado e frágil. O medo de não ser aceito o obriga a esconder seu lado vulnerável e falsamente mantem uma imagem distorcida e irreal de si própria e dos outros também. Nesse panorama a vida fica restrita ao campo de seus problemas e conflitos. Reduz seus horizontes por medo de perder-se no caminho e aí não arrisca caminhar com as próprias pernas, fica na dependência dos outros para mover-se. Alguém precisa dizer-lhe que tem valor, que é amado e manifestar-lhe isso explicitamente! Essa busca por reconhecimento e amor consome todas suas energias e sobra pouco para investir em projetos de vida, e sonhos para seu futuro.
Já encontrei pessoas que por anos carregaram dentro de si dores (mágoas, rancores) com profundo desejo de libertar-se deles, mas não conseguiam. Em muitos casos percebi que a dificuldade em perdoar estava ligada ao medo de perder a razão sobre os fatos que geraram o sofrimento. Em outras palavras, achando que seriam então elas as culpadas pelas situações em que se sentiram injustiçadas daí a dificuldade de abrir mão da fonte de sofrimento (mágoa). Pelo menos assim poderiam dizer que tem um motivo, “segurar a mágoa” como prova da injustiça sofrida! Em alguns casos era verdade também que ela tinha certa corresponsabilidade, embora o peso maior fosse da outra parte. Para livrar-se de mágoas e rancores é necessário ativar a capacidade de perdoar, renunciando a “seu direito de odiar”. Foi o que disse a uma pessoa, que se sentia injustiçada e com certa razão, pelo mal sofrido. Se não houvesse de sua parte um gesto de grandeza (perdoar) continuaria carregando seu ódio e mágoas e estes continuariam fazendo-a sofrer. Quando se aceita que perdoar, não se perde nada e sim se ganha paz, leveza e libertação, então, a vida fica com mais sentido.
Outro aspecto em jogo diante dessas situações é o fato de se cultivar inconscientemente a síndrome de Adão! Qual é? A de querer ser deus, portanto, capaz de tudo e limitado em nada. Quando na verdade, ser humano é reconhecer-se nu, como foi a experiência de Adão depois do fracasso de querer ser deus! Tai, talvez, o maior inimigo de si próprio, não ser humilde suficientemente para reconhecer que é limitado e criatura, e não deus. Isso implica em aceitar-se como é, com suas conquistas e seus fracassos, sem perder a autoestima.
Quanto sofrimento inútil, se carrega, por falta de coragem e amor verdadeiro por si próprio. Esconder-se atrás dos sofrimentos inúteis como prova de sua dor é uma estratégia que só reforça a síndrome de Adão.
Abra mão de suas mágoas, elas iludem você, quando você dá a elas o status de “prova” do seu vitimismo. Basta que você viva os sofrimentos normas e ordinários da vida, sem vê-los como tragédias, mas como parte de sua finitude. Não precisa ficar carregando “lixo” emocional porque ele não garante sua sobrevivência, pelo contrário tira oportunidades de experiências novas e bonitas que a vida lhe oferece.
Dê um tchau às suas mágoas. Elas já cobraram um preço alto de você e já se tornaram um investimento inútil continuar com elas. Aceite seu passado como ele foi, invista e viva o presente e sonhe com seu futuro.

