Pe. Deolino Pedro Baldissera, sds
Na quinta-feira, véspera da Sexta-Feira Santa, a igreja celebra a última ceia de Jesus com seus discípulos. Aquilo que os discípulos, num primeiro momento, pensavam que se tratasse da ceia pascal, como haviam feito em anos anteriores, na verdade, guardava para eles uma surpresa e um mistério. Surpresa porque Jesus fez gestos inusitados para a ocasião, a começar lavando os pés dos discípulos e dando significado novo para o pão e vinho que servido naquela refeição. Jesus lhes diz que a partir de então, quando o gesto que ia fazer, se repetisse em seu nome, aquele pão e aquele vinho seriam transubstanciados em seu corpo e sangue! O Evangelho não registra, mas podemos imaginar o êxtase em que todos ali vivenciaram. Muitas perguntas na cabeça de cada um deles, como isso seria possível? O que mesmo Jesus queria dizer com isso? como assim? Perplexos os discípulos não reagem, suas perguntas ficam em suas mentes. Na verdade, eles ainda não estavam preparados para entender todo o significado do que Jesus dissera. Só o iam entender depois da cruz e ressurreição. A ceia se encerra e dali partem para o monte das oliveiras, onde Jesus vai orar ao Pai oferecendo seu cálice (seu corpo, sua vida), como cumprimento da sua vontade. Segue-se a prisão, o julgamento, a condenação, a morte. Tudo dramaticamente rápido e decisivo. Os discípulos não tiveram tempo para assimilar todos esses acontecimentos, muitos deles se dispersaram, o medo foi maior que a adesão incondicional prometida a Jesus.
Mas o que aconteceu na última ceia ficou como mistério da fé! É o que nós ainda hoje, ao celebrar a eucaristia, confessamos logo após o sacerdote repetir as palavras de Jesus, “isto é meu corpo, isto é meu sangue”. Nós o fazemos como mistério da fé numa ação de graças (eucaristia). Nós aceitamos, como os discípulos aceitaram depois que todo o ciclo da vida de Jesus se completou entre nós, depois de ter passado pela cruz e ressuscitado. Esta celebração pascal tornou-se a fonte vital para a vida da igreja e para nós. Sem ela nossa fé fica estéril. Nenhum outro gesto pode substituir este. Ele é central e permanente “todas as vezes que o fizerdes, fazei-o em minha memória”. É uma memória que não é apenas uma lembrança, mas sim um acontecimento atual. Vive-se em cada eucaristia uma nova Páscoa, eterna e definitiva, nada pode substitui-la. A eucaristia é o “resumo” da vida de Jesus, é a síntese do significado de sua vida entre nós, vivido por Ele em nossa pele humana até que foi crucificado, mas vivo, ressuscitado, permanece, permanente no seu corpo e sangue! Sua presença não é mais física, como era na ceia com os discípulos, mas, misteriosa e presente na Trindade. O Espírito Santo enviado pelo Ressuscitado, conduz o mundo, a Igreja até o final dos tempos. Todo esse mistério revelado por Jesus tornou-se a resposta de amor de Deus para toda a criação. Não só nós humanos fomos redimidos, mas toda a criação! Nossa mente e inteligência é pequena para compreender tudo isso, mas é suficientemente capaz de aceitar e admitir que esse mistério é nossa esperança.
Cada vez que comungamos o Ressuscitado vem ao nosso encontro, não como prêmio por nossos merecimentos, mas por amor que nos tem. Aquele, “isto é meu corpo, isto é meu sangue” se torna presença em nós, que nos plenifica dentro da dimensão humana divina. Nem sempre estamos conscientes disso, caso estivéssemos, após cada comunhão algo em nós deveria tornar-se mais santo.
Isto é meu corpo, isto é meu sangue” – mistério de nossa fé. “Nós proclamamos a morte e ressurreição do Senhor (o Ressuscitado), e ansiosos esperamos pela sua segunda vida”.

