Pe. Deolino Pedro Baldissera, sds

O “que” você procura e a “quem”, em seus dias cheios e em seus dias vagos?  A vida vai levando … a qual procura?

Estamos  sempre à procura! De algo ou de alguém!

Meus cinco sentidos estão sempre a procura, alerta, me levando… Meus olhos se fixam em coisas que os atraem, mas poucas vezes se retem só nelas, estão sempre perscrutando o que está à frente. Veem o que está próximo e voam para o que está longe. Eles me situam no mundo visível e me orientam na direção para onde prosseguir ou desviar.  Meus ouvidos, ficam atentos aos sons que ecoam de todos os lados e tentam decifrar de onde provém e o que representam. Meu paladar saboreia sabores, distingue aqueles mais palatáveis daqueles outros. Meu olfato se aguça para distinguir odores e os seleciona entre agradáveis e desagradáveis; meu tato distingue o que é liso daquilo que é áspero, mole ou duro. Assim meus cinco sentidos procuram, no contato com o mundo externo, se certificar do que está aí e interpretar a relação que se estabelece comigo. Eles (sentidos) estão sempre à procura de vasculhar o mundo que me cerca e me aperta. Por eles eu vejo, ouço, saboreio, cheiro e toco. À  procura dos sentidos me põem em contato com o universo que está a minha volta, me fazem viver e reagir àquilo que me diz respeito e me interessa ou mexe comigo, não consigo ficar indiferente. Meus sentidos me levam a passear pelo mundo das coisas reais, visíveis e sintonizar também com algumas invisíveis, como o vento e o som.

Minhas emoções estão à procura do significado daquilo que as estimula e experimento. Por elas minhas reações se multiplicam, umas me levam à proximidade outras ao afastamento. Fazem meu sentimento flutuar para perto ou ir para longe, sacode meu corpo alegrando-o ou estressando-o. Elas procuram me entreter com seu balanço, me distraem em busca do equilíbrio entre o que sinto e o que penso. Me espremem e me exprimem, me agitam, sacudindo-me entre extremos de hilaridade e temor, me enchem com suores, flutuando em ansiedade e bem estar. Elas sempre me dizem que estou vivo! Elas me levam para o mundo das sensações que respingam em meus membros quando atiçadas.

Meus pensamentos procuram soluções para os problemas que me ocorrem, como também me forçam a analisar as coisas, avaliar se convém ou não convém, me põem em contato com os mistérios da vida, me trazem soluções e, às vezes, confusões. Me inquietam e me acalmam, vislumbram horizontes e ofuscam fantasias. Eles estão sempre presentes até quando durmo, pois, se misturam nos meus sonhos e não sabem explicar direito o que neles acontece. Meus pensamentos sabem me diferenciar das coisas, das plantas e dos animais. Eles são seres diferentes e meu pensamento os compreende e aceita as diferenças de existir de cada coisa ou ser vivo. Sabe distinguir a vida presente, diferente entre animais e vegetais, como se comportam na natureza uns e outros. O pensamento vai sempre para diante, pesquisa, reflete, descobre, inventa, cria, sofistica, investiga o desconhecido e nunca se esgota, sempre tem algo a mais para  desvelar e conhecer. Por isso meus pensamentos são insaciáveis, pois, estão vinculados à curiosidade do mistério que perturba, estimula e desafia. Meus pensamentos me levam para o mundo das abstrações.

Meu espírito está em busca de sentido para tudo o que faço e não se conforma com explicações simples. Ele penetra meus segredos e agita minha alma. Sobe até o céus e desce ao caos. Me faz sentir pequeno diante do mistério maior e me perturba quando se defronta com os limites que se intrometem e dificultam meu discernimento, entretanto, me enche de esperança quando descubro sentido para os enigmas que me afligem. Me desafia em contato com o imanente e me deixa perplexo diante do transcendente; me apresenta seus dogmas que aceito sem recusa por causa de minha fé, mesmo não entendo tudo o que os envolve e nem sei explicar bem, devido minha ignorância. Meu espírito, às vezes, vacila entre o aceitar esperançoso e a dúvida inquietante. Mas me leva para paragens que desejo interiorizar e contemplar.

Constato então, que em minha procura se misturam um “ o que”,  com desejo possuir ou despossuir e um “alguém”, que se configura num “quem”  de duas espécies. Uma humana outra divina que  preenche meus espaços vazios, inacabados, carentes  que precisam de um “o quê “ e um “quem/alguém”!

“O que”, me diz:  preciso de coisas para uso cotidiano, para gastar ou consumir, para guardar para o futuro, ou para desfrutar imediatamente, para encher prateleiras, armários, estantes, fazendo reservas, ocupando espaços vazios, ou para completar algo começado ou ainda sem finalidade nenhuma.  A busca do “o que”, essa procura, está no sangue, como se diz, faz parte da vida! Sem à procura do “que”, a vida estaria esgotada, sem graça, sem horizonte, sem jeito, morta, deixando de existir.

Mas, minhas buscas não terminam no “o que”; elas me levam para busca de “alguém” com quem conviver e compartilhar a vida. Sem companhia, o que consegui ter, ficaria preso no meu egoísmo que me aniquilaria, por isso preciso de um “quem” que só encontro em alguém! Busco por alguém de carne e osso, com quem me relacionar; com quem competir; com quem discutir; com quem estabelecer vínculos; com quem descobrir caminhos; com quem confrontar significados das coisas que faço; com quem desvelar-me; com quem conviver harmoniosamente, mesmo com algum desentendimento; com quem aprender sobre a vida; com quem dar prazer à vida; com quem que saiba escutar. Enfim, com um tu que espelhe meu eu para não ficar desconhecido de mim mesmo. Minha procura por “quem” me faz querer alguém de carne e osso, mas mesmo tendo já, só, não me satisfaz,  não me basta, porque tem Outro “quem” que está ao mesmo tempo ao meu alcance e não consigo possuir todo, nem dominar e nem submeter aos meus cuidados, mas sinto como necessário. Esse Quem  mora dentro e fora de mim. Dentro porque o sinto presente, fora de mim porque se esconde no incógnito e impenetrável, além do meu alcance, mas no fundo, único necessário que preenche todas as procuras. Por isso constato que estou sempre à procura de coisas e de alguém/Alguém. Ambas as procuras ocupam meu tempo e meus espaços e vão levando minha vida a seu destino.

Como se vê, a “procura” é parte essencial da vida. Leva e a impulsiona para frente. Satisfaz necessidades da vida biológica e de relações, da curiosidade do espírito, alarga espaços, adentra em pedaços do mistério e até que encontre sentido pleno.

A procura comporta, um, “porém”:  é preciso discernir, nem toda procura tem o mesmo peso, valor  e significado! Há aquelas dos cinco sentidos necessárias, mas não absolutas, Há aquelas das emoções que precisam ser aceitas e integradas. Há aquelas do pensamento que precisam ser levadas a sério. Há aquelas do espírito que precisam de discernimento e internalização. Cada procura tem seu valor, dentro de seu espaço, sem apossar-se do espaço que é da outra. Uma relação de complementariedade e não de exclusividade.

Por isso a “procura”, por vezes precisa ser seletiva, fazê-la com discernimento para que satisfaça com equilíbrio o bem estar físico e contemple o espaço para as coisas do espírito.

Você que me leu até aqui, em que busca está gastando sua vida? O “que” e a “quem” procura?  Vale a pena seguir esse itinerário, sem revê-lo para onde está indo? Ou você é conformista e apenas canta: ”deixe a vida me levar’’’…

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