Pe. Deolino Pedro Baldissera, sds
Os galos costumam cantar ao amanhecer, anunciam um novo dia! Antes predomina a escuridão, as trevas!
Quando ouvimos a narrativa da paixão de Jesus também há uma referência ao canto do galo. Jesus, após Pedro dizer que estava disposto ir com Ele até a morte se fosse preciso, o alertou que antes que o galo cantasse naquela noite/madrugada ele o negaria três vezes!
Jesus, por conhecer seus seguidores, sabia que seus desejos sinceros de quererem ser seus discípulos, esbarravam em suas inconsistências. Sabia também que ainda se encontravam num processo de conversão de principiantes. Faltava-lhes o componente dado pela cruz! Pedro queria muito seguir Jesus, já o havia demonstrado, largando suas redes, contudo, não compreendia ainda o que isso implicaria. A cena em que aparece esse episódio do canto do galo, é num contexto bastante tenso. Haviam acabado de celebrar a Páscoa em que Jesus anunciara uma nova páscoa que aconteceria no seu corpo e sangue! Os adverte sobre a traição que um deles praticaria. A nova Páscoa seria única e eterna, a última e definitiva! Dali foram ao jardim das oliveiras, ali Jesus fora rezar e preparar-se para sua grande Hora. É ali diante do Pai, que Jesus se prosta e ora, pedindo, se fosse possível que aquele cálice passasse, mas acima de tudo que se cumprisse a sua vontade! Ali Jesus pede a Pedro e seus dois companheiros para que vigiassem com Ele. Não conseguiram, foram vencidos pelo sono. Logo chegaram os que iam prender Jesus. Pedro está ali, armado com uma espada e mostra sua valentia desferindo um golpe, decepando uma orelha de um soldado. Jesus o adverte que guarde sua espada, porque quem com ela fere será ferido. Judas, mal-intencionado, trai Jesus com um beijo! Jesus foi preso e levado para o julgamento. Pedro o seguia à distância cheio de medo.
No pátio, enquanto se aquece com desconhecidos, é reconhecido por uma empregada! Esta, o aponta como seguidor de Jesus. Pedro nega por três vezes que conhecesse Jesus, “não conheço este homem”! O medo da cruz foi mais forte que sua decisão de o seguir até as últimas consequências. Foi nessa hora que o galo cantou! O canto do galo foi o sinal que despertou Pedro de sua incoerência e o fez chorar amargamente! Conhecemos a vida de Pedro, esse homem impetuoso, líder do grupo, pescador profissional, que, reconhecendo suas fraquezas, foi capaz de converte-se e tornar-se o Pedro pedra sobre a qual foi edificada a Igreja.
Pois bem, traçando alguns paralelos com a história de Pedro e o canto do galo, podemos examinar a realidade humana. Constatamos através desses personagens um retrato de nossa realidade de fé muitas vezes, tão contraditória! Numa hora de “coragem” prometemos ir até as últimas consequências, como proclamamos também “bendito aquele que vem em nome do Senhor”. Para depois de pouco tempo dizer “não conheço esse Homem”, “crucifica-o”! É nesse contexto que podemos entender um pouco dos gestos de Jesus. Foi para nos tirar dessa situação complacente, frágil, pecadora que a cruz se mostra como sinal de amor maior. Para acordar diante dessa realidade ambígua em que vivemos, precisamos do “canto do galo” que nos mostre que depois do Getsêmani, do sinédrio, do calvário, há um novo dia que surge com a aurora da Ressurreição!
Olhemos algumas de nossas contradições! Quantos de nós cristãos que, depois de participarmos de encontros de reflexão, saímos dispostos a mudar de vida e levar uma vida mais santa! Enquanto dura a “lua de mel” e soam os aplausos e nossas vontades se realizam como desejamos, somos corajosos! Contudo, quando postos à prova, quando se anuncia o “pesadelo da cruz”, esmorecemos e nossa disposição se esvai diante da hora do testemunho. Qualquer “empregada” que nos questione sobre nossa adesão a Jesus ficamos abalados e o “não conheço este homem” se manifesta de muitas maneiras como justificativas. Entre elas, citamos alguns exemplos: quando somos contrariados em nossas “convicções” de fé, em nossas práticas na comunidade cristã em que prestamos serviços movidos pela auto referencialidade, facilmente abandonamos tudo porque não reconhecidos; quando em nossos apegos a cargos que nos dão destaque são ameaçados por novas lideranças; quando em nossos trajes majestosos que nos dão brilho diante da plateia que bate palmas, não somos prestigiados. Quando muitos entendem o seguimento de Jesus como lugar de autopromoção e ficam frustrados por não a receberem. Outros, quando não concordam que o Evangelho é exigente que não pactua com a injustiça dos ‘sinédrios”, que defende os pobres, que pede solidariedade e compromisso com a verdade anunciada por Jesus e não com aquela ditada por conveniências como fazem os que tem poder, se julgam incompreendidos e desistem ou trocam de igreja. Quando, muitos do alto de seus acentos como Pilatos lavam as mãos diante dos injustiçados; outros ainda, quando fazem coro com estes, denunciando os que tomam partido pelo pobre caluniando-os como “comunistas”.
Há muitos cristãos que querem viver uma piedade sem dor, sem cruz; que preferem um Cristo “lite” (light) que aparece muitas vezes em “shows da fé” televisivos ou em campo aberto, com luzes e arte musicais com coreografias bonitas! Outros, outrossim, que participam de exercícios de curas e saem aliviados de suas emoções conturbadas aceitando isso como prova suficiente para justificar sua fé sem compromisso. Quando todas essas situações, são submetidos ao Cristo carregado de cruzes que a Igreja defende e proclama, e denuncia as desumanidades e violências contra os mais vulneráveis, gritam que ela não os representa!
Quando não se aceita o Cristo crucificado, como no primeiro momento Pedro queria, não vai encontrar o Ressuscitado! E aí, pergunto eu, qual é o Cristo de sua fé?!
O canto do galo se faz necessário em nossas vivências contraditórias, para nos acordar para a verdadeira “Luz” que ilumina nossas noites perturbadas.
O canto do galo foi um sinal que recordou a Pedro de sua postura mesquinha e covarde. Ele acordou! É preciso que o galo conte muitas vezes, para acordarmos de nossa fé morna e descompromissada! Caso contrário o galo vai ficar “rouco” de tanto cantar e podemos continuar “dormindo”, enquanto os dramas da vida acontecem ao nosso redor, esperando que o cálice passe, sem a disposição que Cristo teve de realizar acima de tudo a “vontade do Pai”.
Fiquemos atentos aos ecos do canto do galo, ele nos lembra um novo dia que vem chegando! Oxalá, a aurora da nova Páscoa definitiva afugente nossas trevas (contradições) e no brilho da Ressurreição, assumamos uma postura de convertidos ao Evangelho de Cristo!

