Pe. Deolino Pedro Baldissera, sds

Estamos nos aproximando da celebração de mais uma Páscoa. É a celebração central da fé cristã. Não há festa maior! Há a páscoa judaica e a Páscoa cristã.

Nas celebrações da Páscoa judaica, memorizava-se a intervenção de Deus libertando o povo da escravidão do Egito.   O sinal ( marca) de sangue nos umbrais das portas, indicava a identidade e a pertença ao povo escolhido. Ao receberem a ordem para preparar a saída, num cerimonial religioso, alimentaram-se comendo a carne de um cordeiro junto com ervas amargas, que, ao mesmo tempo, os fortalecia para o grande êxodo e sinalizava os sofrimentos que os acompanhariam. A passagem do anjo anunciador inundou de esperança a vida aprisionada pelo jugo egípcio. Deus estava cumprindo sua promessa de libertação. O povo guiado por Moisés lançou-se a caminho, aceitando pagar o preço do percurso. Uma força os movia, a “esperança”! A esperança que também alimentara outrora a saída de Abraão para uma terra desconhecida. Uma nuvem que escondia a presença de Deus, os guiava pelo deserto. Depois de uma geração inteira, 40 anos de travessia, finalmente chegaram ao destino! Para perpetuar tal acontecimento anualmente, reunidos no templo de Jerusalém , rememoravam com alegria os feitos do passado libertador, sacrificando animais e ofertando-os a Javé.

Nós cristãos, ao celebrarmos a Páscoa, recordamos também um feito libertador. Diferente daquele geográfico dos Hebreus, mas com alguns simbolismos daquele. Lá o sacrifício foi o sangue de um cordeiro, na Páscoa cristã, o sangue foi o de Jesus. Lá, saiu-se da escravidão imposta pelo faraó,  na dos cristãos é uma libertação ainda mais incisiva, daquela do  domínio do pecado. Foi uma intervenção direta do Filho de Deus, que aceitou pagar o preço, como um “goel”. Pagou o resgate (redimiu) e libertou do jugo do pecado (salvou) . Não fosse assim, estaríamos ainda excomungados na relação com Deus.

Celebrar a Páscoa cristã não só recorda essa decisão de Deus, movido por seu amor, comprometer a vida do Filho com a missão de carregar sobre si todos os pecados da humanidade. O preço pago foi derramar seu sangue no patíbulo da cruz. Na cruz ficou o sinal (marca) da “libertação”, que restabeleceu a ponte para a comunhão com Deus na Ressurreição.

Toda vez que fazemos o sinal da cruz  sobre nossa fronte, professamos nossa fé no gesto libertador de Jesus. Cada vez que o fazemos, recordamos nosso compromisso com sua causa!

Na Páscoa fazemos esse memorial perene e eterno em que celebramos a Ressurreição,  esperança e garantia da vida eterna e seu seguimento!

Na verdade, em cada eucaristia que celebramos, revivemos a Páscoa de Jesus que se faz presente de maneira misteriosa ali no altar no pão e vinho consagrados.  É  a presença invisível do mistério escondido sob os sinais de “pão e vinho”, aí transubstanciados em o corpo e sangue!

A presença de Jesus na eucaristia, é profissão de fé dos cristãos, embora nem todos se extasiem diante de tal mistério! Como se comportar na presença de Deus? O que fazer com o corpo, a cabeça, o coração, os sentimentos, as emoções diante de tal realidade?

Nem sempre conseguimos ter a reverência profunda que o mistério exige, nossas distrações, preocupações com outras coisas, nos distanciam, dispersam ou quase nos tornam indiferentes.  Às vezes recebemos a comunhão sem nenhum preparo antecedente, entramos na fila, estendemos a mão, comungamos, tudo meio “robotizado” para continuar depois tudo como estava antes!

Se a eucaristia não nos transforma, ou, ao menos, nos desperte o desejo de ser mais íntimos de Deus e atentos a sua Palavra, então a eucaristia pode se tornar um costume piedoso, mas pouco eficaz.

A Páscoa celebrada no tempo litúrgico anual é um momento propício para nos levar a uma fé e esperança mais profunda.

Não basta um sentimento ou até emoções ao participar das celebrações pascais, é necessário estabelecer um vínculo mais duradouro e transformador.

Páscoa é memorial dos fatos passados, mas é também um acontecimento presente. Nós confessamos que é um mistério de nossa fé! Sendo real e verdadeiro, então temos também a certeza de que Deus, em Jesus e no Espírito Santo continuam se manifestando no hoje histórico. A força do ressuscitado continua agindo em nosso  tempo, cabe a nós, à luz da palavra de Deus discernir seus sinais. Viver movidos por essa fé, nos põe sempre a caminho, e na travessia de nossa vida vamos encontrando obstáculos (“ervas amargas”!) a serem transpostos com nossa participação ativa e esperançosa. O ressuscitado repete continuamente: “estarei conosco até o fim do mundo”! Não é mais uma nuvem teofânica que é o sinal de sua presença no meio de nós, mas sim a eucaristia e a Palavra de Deus, que estão sempre ao alcance de nossas mãos e são sinais reais que dizem “tomai e comei, tomai e bebei”! É Jesus quem afirma: “eu sou aluz do mundo” quem comigo vai comigo não anda nas trevas.

Celebrar a Páscoa novamente é ocasião de renovar em nós a certeza de que já não somos mais escravos do pecado e sim herdeiros da vida eterna. Boa Páscoa e viva a ressurreição!

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