Deolino Pedro Baldissera, sds
Estamos em plena Quaresma! É um tempo em que a Igreja nos coloca diante das experiências do passado e do presente! A Quaresma nos põe em sintonia com lembranças memoráveis da caminhada do povo de Deus, seja do tempo da escravidão no Egito, seja das andanças pelo deserto em busca da liberdade e da terra prometida, que estavam no outro lado do Jordão! Mas Quaresma não é só isso! É, sobretudo, tempo de pôr-se a caminho com Jesus, vivendo com Ele a experiência do percurso doloroso para “Jerusalém”, onde as coisas iriam se definir de uma vez por todas. A caminhada para o Calvário leva ao encontro da vida plena dada na Ressurreição. Sem Quaresma não há Festa de Páscoa. Embora na Quaresma, para nós continue sendo tempo de memória, é, acima de tudo, espaço e tempo de conversão!
Essa quarentena nos convida a uma revisão de vida para perceber se ela está alinhada ao verdadeiro sentido que ela tem ou se há aspectos que estão nos distanciando de nós mesmos, dos outros e por consequência de Deus também.
Em nosso mundo, que não dá trégua à vida, e, exige dela um cotidiano cheio de tarefas para executar e tempo escasso para “parar”, nos propõe ideais de consumo que enganam e distanciam um futuro de vida plena. Somos como que obrigados a responder as demandas do mundo consumista, exigindo de nós, trabalho com metas pré-estabelecidas para alcançar, custe o que custar, para manter o vínculo empregatício temos que nos submeter às leis de mercado que se baseiam em produção que dão lucro! Quase poderíamos dizer que somos avaliados pelo que produzimos. Quanto mais, mais valorizados! É uma lógica perversa porque define quem somos pelo que produzimos. E nessa lógica há os melhores, os médios e os deficitários. Nela a igualdade não depende o fato de ser humano, mas sim de quanto se produz. Vivemos essa lógica enganosa que promete um futuro baseado no lucro, porém, cujo resultado é o vazo existencial. Resgatar a própria dignidade desvinculando-a dessa ideologia é também propósito do tempo quaresmal. Quaresma, é, portanto, tempo de rever o traçado de nossa vida, se o caminho que estamos percorrendo nos leva àquilo que realmente desejamos para ela ou somos inconscientemente traídos e iludidos por um mundo destituído dos valores fundamentais que dão significados duradouros.
Quaresma é essa oportunidade de fazer um “pitstop” para rever nossas trilhas.
Para nós cristãos o confronto passa necessariamente pela pessoa de Jesus. É ele o referencial que nos mostra o sentido, o caminho e a verdade sobre a vida. Em relação à pessoa de Jesus precisamos usar os critérios do Evangelho, porque hoje existem muitas propostas que falam de um Jesus sem cruz, tudo se resolve com milagres! Quem busca um Jesus sem cruz, não vai encontrar o Ressuscitado, que passou pela cruz! Em outras palavras, para muitas pessoas a vida devia acontecer sem sofrimentos, como, às vezes, aparece em muitas pregações ou veiculados pela mídia. Contudo, a experiência de cada um conhece o contrário. Não buscamos o sofrimento pelo sofrimento, isto seria masoquismo (doença), mas aceitar aquele inevitável que faz parte do cotidiano e associá-lo à cruz de Cristo, e assim torná-lo também redentor.
Converter-se como pede o evangelho é um desafio exigente, porém que está ao alcance de quem quer ser verdadeiro seguidor de Jesus, porque pode contar também com sua graça.
Superar as “tentações”, as que Cristo foi submetido e inserir-se na dinâmica proposta por Ele, que é aquele de pô-lo como prioridade absolta, acima da própria vida é a garantia de possuí-la plenamente.
Quaresma é tempo necessário e suficiente para uma guinada de conversão para poder celebrar com esperança uma Páscoa de ressurreição!

