Pe. Deolino Pedro Baldissera, sds

O hífen é um sinal gráfico que aproxima e distancia ao mesmo tempo duas palavras para que ambas deem sentido a uma composição. Há muitas regrinhas para saber quando se une ou se separa palavras por hífen e quando se duplica letras para fazer a conjunção de palavras. Por exemplo se tomarmos as palavras “auto” e “suficiente” separadamente, cada uma delas tem um sentido próprio, mas se as unirmos numa só “autossuficiente” que é a união das duas, tem outros sentidos!

Aqui não quero explorar a questão gramatical do “hífen”, mas fazer um certo paralelo que acontece com nossas relações interpessoais de amizade. Quando nos encontramos com pessoas e estabelecemos algum tipo de relação, às vezes, ficamos na dúvida se nos aproximamos mais ou nos distanciamos. Distanciar-se um pouco, isto é, manter limites é necessário para fluir a comunicação e estabelecer um vínculo seguro de não invasão e deixar um espaço de segurança para não anular o outro ou não ser anulado por ele. Às vezes, a situação exige um distanciamento,  outras um pouco de proximidade. Quando uma e quando outra? O bom senso deveria ser o maestro que indicaria o distanciamento saudável. Nem longe demais nem perto demais. Longe de mais poderia passar a mensagem de desinteresse, desvalorização, indiferença. Perto de mais poderia significar desejos de invasão ao privado sem o consentimento do outro. Ninguém quer ser invadido em sua privacidade. Quando falo em distanciamento ou proximidade não me refiro somente ao espaço físico, mas inclui aquele do olhar ou posturas que transmitem medo, insegurança ou confiança, respeito, amabilidade. Nessas situações nem sempre as regras do bom senso prevalecem. No caso humano não são apenas “regras de sintaxe” (ou boa educação!) que governam os motivos de proximidade ou distanciamento. Entram fatores emocionais que às vezes escapam do controle consciente da pessoa. Muitas vezes as carências afetivas ou necessidade de reconhecimento inibem na pessoa seu bom senso e ela não sabe lidar com o “hífen”! Isto é, manter o distanciamento saudável,  diferente daquele pegajoso, inoportuno e invasivo e exigente! A percepção de cada um imediatamente avalia a situação e provoca nela uma reação de “hifenização”. Isto é,  anula o hífen e se aproxima demais, ou se distancia, fugindo do hífen, isto é, do medo de ser “engolido” pelo outro. Muitas pessoas que sofrem por carências, tem o desejo de relacionar-se com o outro sem “hífen”, isto é,  buscam uma relação de tipo simbiótica em que se fundem no outro para absorvê-lo com o intuito de preencher seu vácuo afetivo. Naquele outro, em que prevalece a necessidade de reconhecimento, busca no outro a confirmação de que é alguém porque sozinho fica na incerteza.  “Seu hífen”, precisa ser substituído por acréscimo, como no caso de palavras que anulam o hífen acrescentando “s” o “r”. como nos exemplos das palavras  “antissocial”  e “irracional”.  Essas questões sutis pervadem as relações em que se quer cultivar a amizade. Segundo algumas estatísticas o número de pessoas solitárias (imaturas) sem vontade de lidar com os “hifens”,  tem aumentado muito, apesar dos meios altamente sofisticados usados por elas. O número de pessoas em depressão, ou sofrendo de ansiedade doentia, que se refugiam no distanciamento do convívio social (sem amizades) é preocupante. A atual geração Z, denominada por alguns cientistas como “geração ansiosa”, sofre particularmente porque viciada demais em mídia, não desenvolve a capacidade da relação tête-à-tête e quando diante do outro real (não virtual) não sabe nem se quer, se existe “hífen” para as relações.

Como se vê a questão do “hífen”, quando gramatical tem regras que indicam seu uso adequado, quando, porém, se trata de relações entre pessoas o “hífen” se torna problemático com manifestações que fogem do controle e dificultam a convivência sadia e  prazerosa da boa amizade.

Nas relações sadias cada um mantem sua própria originalidade e significado, como no caso das palavras citadas no início: “auto” e suficiente”.  Auto no sentido de “aquilo que é próprio”, que pertence a alguém, original. “suficiente” no sentido de  “basta” tem o necessário. Se juntamos as duas “autossuficiente” pode ter uma conotação positiva ou negativa. Pode significar, consegue dar conta de si, é autônomo ou no sentido negativo, sentir-se superior  (na verdade “inferior”) aos outros, bastar-se a si mesmo, fechar-se sobre si.

Concluindo. Nossas relações de amizade podem ser avaliadas pelo critério do uso do “hífen”, conforme já foi descrito acima. Portanto viva suas amizades, mas não esqueça de verificar a questão do “hífen”!

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