Introdução

No escrito que segue, vamos refletir sobre uma das dimensões da vida humana e que também se torna importante na Vida Religiosa Consagrada, que é a amizade. A amizade comporta não somente elementos humanos, mas também espirituais, isto é, algo que transcende a compreensão humana. Se na amizade existe algo que transcende o humano e entra na esfera espiritual, podemos então dizer que essa é também um dom de Deus. “Amigo fiel é poderoso refúgio: quem o descobriu, descobriu um tesouro” (Eclo 6, 14). No ambiente grego, muito se tratou sobre a amizade com o intuito de entender melhor esse estilo de relação que se dá entre as pessoas. De certa forma, outras esferas de pesquisa, como é o caso da teologia bíblica, também buscaram compreender a amizade, mas é de fato, a própria experiência de amizade que nos interpela e nos atrai para ela. Em todo caso, a maioria de nós, somos de acordo que ter amigos nos faz bem, e nos abre perspectivas para novos horizontes. Sendo assim, fundamenta o Livro do Eclesiástico: “Amigo fiel, é balsamo vital” (6, 16).

 

Alguns aspectos da concepção grega de amizade

Ao trabalhar o tema da amizade, mesmo que de forma breve, não podemos deixar de mencionar algumas discussões feitas no mundo grego, pois eles, primavam pela amizade a ponto de colocá-la no patamar de virtude moral. “A virtude moral da amizade é de extrema necessidade para a vida” (VALDUGA, 2007, p. 23). Tantas eram as discussões em torno da amizade para tentar entender tão grade virtude e seu fundamento.

Para Heráclito de Éfeso (s. VI aC), a harmonia nasce do contraste, da discórdia surge o acordo. Para Empédocles de Agrigento (s. V aC), a amizade provém da união dos similares: quem se assemelha se aproxima. Para os discípulos de Pitágoras (s. VI aC), é a comunidade (Koinonia): tudo é comum entre os amigos, e de fato, praticavam o voluntariado comum vivendo em comunhão. (ROVIRA, 2008, p. 29).

 

Não obstante vários pensadores se debruçarem sobre o tema da amizade, Epicuro (341-270 aC), dá uma sentença referente a amizade quando afirma: “De todos os bens que a sabedoria procura para a completa felicidade na vida, o maior de todos é a aquisição da amizade” (EPICURO apud ROVIRA, 2008, p. 30). Percebemos que, de certa maneira, os gregos viam a amizade ligada à busca da felicidade.

Ao falar de amizade, Platão, no diálogo Lísis, a caracteriza de modo particular pela reciprocidade. “Onde não tem reciprocidade, não pode existir amizade” (PLATÃO apud ROVIRA, 2008, p. 30). Sendo assim, a relação de amizade implica uma partilha de sentimentos em paridade, pois, reciprocidade não vêm somente de um polo, mas sim, dos dois polos, isto é, tanto de um amigo quanto de outro.

Nessa mesma esteira, segue Aristóteles dizendo que, dos bens que concorrem à felicidade, depois da sabedoria, a amizade é a mais estimável e desejável pelo homem. Assim, ele afirma: “de fato, ninguém deseja viver sem amigos, mesmo dispondo de todos os outros bens […]” (1992, 1155a, p. 153). Levando em conta isso, Aristóteles apresenta três espécies de amizade: uma é fundada sobre o interesse, que é a menos estimável porque os amigos não amam uns aos outros por si mesmos, mas por causa do proveito que um obtém do outro. A outra é fundada sobre o prazer, e que pode ser aplicado o mesmo raciocínio da amizade por interesse, isto é, os amigos não se gostam por seu caráter, mas sim, porque se acham agradáveis. Por fim, a amizade perfeita, que é fundada no bem e na virtude.

A amizade que nasce da virtude é a mais rara, porém, é a melhor. Enquanto na amizade por interesse ou por prazer os amigos buscam amar uns aos outros por aquilo que eles têm, fazendo do amigo um instrumento de vantagens, na amizade perfeita, o amor é autêntico, ou seja, o amigo ama o outro por aquilo que ele é, estabelecendo tal relação de forma recíproca.

É muito significativa esta afirmação de Aristóteles porque sustenta o fato de que a amizade diz respeito ao ser da pessoa. Ela está baseada em algo que não é material, mas sim humano/espiritual, isto é, transcendental. Para construir laços de amizade é necessário abrir-se ao amigo. Por isso, “quem é muito egocêntrico é como prisioneiro de si mesmo e incapaz de estreitar amizade” (GRÜN, 2011, p. 5). Para uma relação de amizade é necessário altruísmo.

Podemos intuir, então, na afirmação de Anselm Grün, que na relação de amizade é muito importante a abertura, o deixar-se conhecer, o doar-se e o altruísmo. Na relação de amizade, então, não cabe egoísmo.

 

Alguns aspectos teológicos da amizade com Jesus Cristo

Partindo de um olhar da teologia bíblica, encontramos uma das mais belas expressões sobre amizade no Evangelho de João 15, 15, onde Jesus declara: “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que seu senhor faz; mas vos chamo amigos, porque tudo o que ouvi de meu Pai vos dei a conhecer”. A amizade fundamentada por Jesus é de abertura e partilha. Jesus não quer estar distante dos seus, mas busca estabelecer uma relação, a mais próxima possível, daquela trinitária. Percebemos, então, que a amizade sustenta, entre Jesus e seus discípulos, uma espécie de aliança que é fundamentada no amor trinitário, isto é, um amor que ama o outro por aquilo que ele é. Em outras palavras, um amor chamado de reciprocidade.

A amizade trinitária nos serve então como chave de leitura, compreensão e de interpretação de toda a realidade, especialmente aquela do homem; e, concretamente para compreender qual seja o fundamento, a fonte, a origem, o modelo e o ponto de chegada da amizade humana (ROVIRA, 2008, p. 296).

É, então, a amizade de uma fonte divina? O próprio Jesus constituiu uma comunidade de amigos. Escolhe doze para ficar com ele, isto quer dizer, a amizade tem a ver com escolha. “Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi” (Jo 15, 17). Jesus recorda aos seus, na última ceia, que a amizade com ele é um dom. “A amizade, esse sentimento fiel de estima entre as pessoas, é um dom de Deus, um fenômeno humano universal, que nasce da livre oferta de si mesmo para abrir-se ao mistério do outro.” (CF, 2024, p. 17). Jesus, a cada passo de sua vida terrena, busca estreitar sempre mais a relação com seus discípulos. “Quando Cristo quis explicar em um modo humanamente compreensível o seu amor, falou de amizade” (ROVIRA, 2008, p. 71). Mesmo vivendo a amizade nesse grupo, Jesus tem uma relação de amizade mais estreita com Pedro, Tiago e João. De fato, mesmo vivendo em grupo, comunidade, a amizade não se dá com todos ao mesmo nível.

Podemos notar em Jesus algumas características que fazem parte da constituição de um amigo. Vamos a elas.

1-Jesus era uma pessoa agradável: Ele tinha um olhar respeitoso para com a natureza, demostrava sentimentos quando chorava com os tristes, ria com os alegres, possuía um humor contagiante que todos apreciavam estar em sua companhia.

2-Jesus era um homem disponível: Jesus era uma pessoa aberta as novidades do seu tempo, era acolhedor, tanto que as pessoas se sentiam à vontade ao seu lado. Era raro escutar de Jesus que estava cansado de estar com os necessitados.

3-Ele acolhia as diversidades, não fazia diferença entre as pessoas: Jesus procurava promover a amizade social com todos. Ele anunciava o Reino de Deus aos ricos, pobres, homens, mulheres, crianças, enfermos e pecadores.

4-Jesus aceitava os outros na sua constituição de personalidade: Ele não forçava ninguém a ser diferente e nem a modificar seu jeito de ser. Pelo contrário, ele convidava a conversão, mas as respeitava como elas eram, e agiam. Além de convidar, Ele apontava caminhos possíveis a serem trilhados.

5-Ele acreditava e apostava nas pessoas: Jesus via seus amigos muito além das aparências, por isso sabia de suas potencialidades. Dessa forma, colaborava para que essas potencialidades fossem utilizadas para o bem e a propagação do Reino de Deus.

6-Jesus não deixava as pessoas na mão: Jesus apresentava soluções para todos os problemas e respostas para todas as perguntas. Contudo, pedia também a participação de cada um com sua fé. Estava sempre pronto para defender e apoiar seus amigos.

7-Ele sabia guardar segredos: Jesus tinha conhecimento do mais profundo das pessoas, dos seus pecados, das suas fragilidades e dons. Porém, Ele não os comentava com ninguém. Ao mesmo tempo, quando fazia curas, pedia que não se falasse a ninguém o que havia acontecido. Era uma pessoa em quem realmente se podia e se pode confiar.

Essas qualidades citadas acima são valorizadas em um amigo. Todavia, a capacidade de guardar segredo é a mais forte, pois é muito chato quando alguém partilha uma informação pessoal e descobre que essa pessoa passou adiante tal informação. A amizade não comporta tal atitude, pois se essa entra na relação de amizade, se perde totalmente a confiança no amigo e a amizade se desfaz. Por isso Jesus jamais divulgou um segredo, e assim passa a ser o modelo de confiança.

 

Vida Religiosa Consagrada: terra fértil para o cultivo da amizade

A Vida Religiosa Consagrada tem como fundamento de sua existência Jesus Cristo, que foi o primeiro amigo dos homens enviado por Deus para fazer conhecer o próprio Deus à humanidade. “Em Cristo, Deus oferece ao homem a sua amizade mediante a reconciliação e comunhão com ele” (ROVIRA, 2008, p. 291). A amizade é uma forma de relação que perpassa os tempos e as culturas, pois, de uma forma ou de outra, todos entendem, em nível subjetivo, quando falamos de amizade.

Sendo Jesus Cristo o amigo da humanidade e tendo a Vida Religiosa Consagrada seu fundamento em Cristo, podemos então afirmar que esta, se torna um terreno fértil onde se pode construir e cultivar amizades, não só humanas, mas também espirituais.

De certa forma, a amizade tem uma dimensão que transcende o somente humano, pois ela, diz respeito a virtude e a autenticidade. “Tem sempre alguma coisa de misterioso no nascimento de uma amizade” (GRÜN, 2011). A amizade não nasce de uma hora para outra e nem por acaso. “Ela nasce do longo exercício da virtude e da autenticidade das relações” (VALDUGA, 2007, p. 24). Nossas primeiras experiências de relação são com pessoas, isto é, nossos pais ou cuidadores. Nesse sentido, é por essas relações que irá se basear a nossa relação com Deus. A relação com Deus, então, pode sofrer interferências devido nossas relações humanas não serem sadias ou bem trabalhadas. Contudo, a relação de amizade implica proximidade e convivência.

Dessa forma, podemos afirmar que a amizade nos aproxima de Jesus quanto mais convivemos com ele e somos autênticos. Assim, a vida espiritual também é uma relação de amizade. E nesse sentido podemos chamar de amizade espiritual. A amizade espiritual pode ser classificada como uma relação entre duas pessoas com semelhança de vida. “A amizade espiritual entre os bons surge da semelhança de vida, dos costumes e desejos, isto é, de acordo nas coisas divinas e humanas com benevolência e caridade” (AELREDO apud ROVIRA, 2008, p. 162).

Vemos então que a amizade espiritual implica a semelhança de vida espiritual, isto é, o mesmo credo, o mesmo carisma, o mesmo fundamento. Além de trazer essa dimensão espiritual, a amizade também traz benefícios para a vida biológica. “Segundo pesquisadores, a amizade traz muitos benefícios para o nosso cérebro, (…)” (VALDUGA; MAIA, 2021, p. 49), pois estas relações colaboram na produção de hormônios que nos tornam mais fraternais. A fraternidade é um componente essencial no âmbito da Vida Religiosa Consagrada. Nessa perspectiva, notamos que a relação de amizade na Vida Religiosa Consagrada desperta para uma dimensão humana, mas também espiritual de bem-estar e realização vocacional.

Parece-nos, então, que a amizade é capaz de comportar algo de humano, mas também algo de divino, porque atua através de uma experiência forte de amor (ágape), isto é, que se doa de forma incondicional. Assim, a amizade na Vida Religiosa Consagrada tende a fortificar a vivência fraterna, pois essa, implica investimento de amor incondicional.

 

Conclusão

Chegando ao final desse escrito, percebemos que ainda existem muitas coisas a serem ditas em torno da amizade, e o que descrevemos acima é somente a ponta de um enorme iceberg. Desde muito tempo a amizade é uma “estrutura basilar” da humanidade, a qual busca sempre mais construir relações, pois o homem e a mulher são por natureza seres relacionais.

A amizade é, então, uma forma de relação universal, mas ao mesmo tempo, toda particular, pois cada um sabe o quanto é amigo do outro. É difícil medir a amizade, mas se quisermos, podemos medir os benefícios de uma amizade, como é o caso do bem-estar emocional, relacional e a própria saúde mental no sentido de segurança social.

De certa forma, podemos ver na relação de amizade elementos humanos, mas também espirituais, porque no fundo, entre os amigos, existe algo que ultrapassa o puramente humano, a ponto de um amigo dar a vida em favor do outro amigo. “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos” (Jo 15, 13).

A Vida Religiosa Consagrada se apresenta como um terreno fértil para construção de relações de amizade porque a mesma está embasada na vida de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele se mostrou o verdadeiro amigo dos homens e das mulheres enquanto peregrinava por este mundo. Dessa forma, Jesus, caracteriza, a amizade como uma relação também espiritual baseada na relação trinitária, isto é, na reciprocidade e incondicionalidade.

A Vida Religiosa Consagrada é também ambiente propício para construção de relações de amizade porque ela comporta as duas realidades da amizade, a saber, a realidade humana e a realidade espiritual. A realidade humana se apresenta na vida em comum, em grupo, em comunidade de pessoas, e a realidade espiritual, por sua vez, se apresenta porque a vida em comum, o grupo, a comunidade vivem e trabalham junto por causa de um carisma com o objetivo comum de seguir a pessoa de Jesus Cristo e propagar o seu Reino.

Porque, então, a amizade fala a língua de Deus? Porque ela é uma realidade humana e divina. E ainda, o estilo de relação que se estabelece na amizade, é de profunda cumplicidade e aliança assim como Deus estabeleceu relação com seu povo.

 

 

Referências Bibliográficas

 

ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos. Tradução de Mário da Gama Kury. 2 ed. Brasília: Edunb, 1992.

BÍBLIA. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2004.

CNBB. CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Campanha Da Fraternidade 2024. Fraternidade e Amizade Social: “Vós sois todos irmão e irmãs” (cf. Mt 23, 8). Manual. Brasília: Edições CNBB, 2023.

GRÜN, Anselm. L’Amicizia. 5. ed. Brescia: Quirinale, 2011.

ROVIRA, José. Amicizia e Fraternità nella Vita Consacrata. Roma: Claretianum, 2008.

VALDUGA, Alison. O Caminho Educativo das Virtudes como Condição Necessária para a Formação Ético-Moral do Cidadão na Pólis. Monografia (Graduação e Filosofia) Faculdade Palotina FAPAS. Santa Maria, p. 56, 2007.

VALDUGA, Alison: MAIA, Silvia C.. A Árvore das Reflexões: Textos Psicoespirituais para Iluminar seu Caminho Pessoal e Relacional Rumo à Autotranscendência. Santa Maria: Biblos, 2021.

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